Parabéns Gustavo!
É possível causar dor com as palavras sem se dar conta. No entanto acredito que o que se sente ferido escolheu sentir dor. Só podem me atingir as palavras que acredito serem verdadeiras e que falam ao que está em mim. O modo como irei reagir à verdade é escolha minha. Se alguém diz, por exemplo, que sou má pessoa, tenho várias escolhas. Pode ser que isso não me afete de modo algum e eu nem ligue para o que foi dito. Talvez eu pare para pensar em atitudes maldosas que já tenha tomado e possa ver alternativas para esse modo de agir. Pode ser ainda que eu veja no meu lado mau uma defesa com relação às outras pessoas e decida preservá-lo. Existe ainda a possibilidade de eu me torturar eternamente porque alguém me acha má, ou disse que sou má. Prefiro evitar a última possibilidade, é a mais fácil de acontecer, mas é a mais destrutiva. É comum a escolha pela opção: as pessoas não gostam de mim, tenho motivos para não gostar também. O fato é que quase nunca as pessoas vão sinceramente gostar de mim, de você ou de quem quer que seja. Boa parte da humanidade desconhece o carinho, o verdadeiro afeto, o amor. Colocar como condição para amar a si próprio que os outros o amem é exigir demais. É impossível mudar o que está fora de nós. A liberdade única que eu, você e a sua vizinha temos é de mudar a nós mesmos naquilo que achamos importante mudar.
Sempre que se coloca em palavras algo é modificado. A palavra jamais consegue traduzir o sentimento tal como ele é. A palavra o transforma porque a palavra traz em si algo só dela. O sentimento então se molda à palavra. Ele se torna universal porque uma palavra tentou traduzi-lo. O sentimento expresso em palavras pode ficar mais intenso ou mais ameno. As palavras são assim a vestimenta do sentimento. Meu sonho, sempre que escrevo, é conseguir encontrar a roupa certa para cada sentimento. Provocar no leitor uma emoção que esteja em sintonia com o sentimento original. Quem sabe um dia aprendo a tirar as palavras certas do armário.
Tudo é novo e incerto, todos os dias. Felizmente sou livre da ilusão da certeza. Espero estar atenta a cada instante. Sentir o universo, sentir-me no universo. Além disso tudo, quero café, para beber com todos os sentidos.
A luz viaja do sol à terra e permite que os olhos vejam o que está ao seu alcance. Mais que isso, a luz que chegou aos olhos chega também à mente. A mente, a partir da informação da luz, forma as mais belas e também as mais aterrorizantes imagens que nenhum par de olhos jamais viu. A luz é o alimento primeiro da imaginação. Não há palavras que descrevam nem mãos hábeis o suficiente para externar com fidelidade o que vai no universo de cada um. Talvez seja a dificuldade de cada um em externar seu universo que nos leve a crer que carregamos cada um, um universo só seu. Quem sabe se houvesse palavras mais precisas ou se as mãos produzissem imagens mais claras, fosse finalmente possível ver que o universo é um só e que cada um traz consigo uma minuscula parcela dele que se encaixa com perfeição a todo o resto.
O que mais há é o vazio. Há um grande espaço que separa as partículas elementares umas das outras. Cada coisa, cada ser, é só. Cada parte de cada um é só. Seguindo essa linha, não há motivos para o apego. É possível se sentir ou não em harmonia com algo ou alguém. É impossível estar de fato ligado a algo ou alguém e nutrir esse tipo de ilusão só causa sofrimento. O movimento nunca cessa, o fundamental é saber dançar.
Alguns dizem que a música de Mozart é simples demais, que não é profunda, que enfim, ele não é tão bom assim. Discordo. Desde sempre a música de Mozart me fez perceber os sentimentos mais escondidos. Viajei a todos os cantos da minha alma com a ajuda de Mozart. A simplicidade da música de Mozart me diz muito.