Reminiscências

Sexta-feira, Outubro 29, 2004

Por que Física?

Várias vezes fui perguntada sobre o motivo que me levou a estudar Física. Posso dizer que foi simplesmente curiosidade. Querer saber o que faz a natureza se comportar como se comporta. Poder fazer aquelas peruntas que as crianças costumam fazer e me divertir por um bom tempo procurando a resposta.

A pergunta infantil que fiz ultimamente foi: como será que a tartaruga faz para cavar um buraco na areia? Estou atrás da resposta há uns bons meses e a procura está muito divertida. Sendo eu uma pessoa pouco dada a testes práticos vou desenvolvendo modelos teóricos que me dêem a resposta que procuro. Trabalhar com modelos teóricos tem a vantagem de não serem necessários muitos materiais de trabalho. Um computador, alguns programas e a diversão está garantida.

Acho difícil entender por que muitas pessoas não gostam de Física. Afinal todo mundo já foi criança e gostou de fazer perguntas. Será que as pessoas simplesmente perdem o gosto em perguntar? Será que a natureza deixa de ser um assunto interessante? Vá saber. No que me concerne, estou feliz com o fato de que fazer perguntas de criança e procurar a resposta para elas é o meu trabalho.

Terça-feira, Outubro 26, 2004

Dia das Nações Unidas

A Alicia, praticamente desde que aqui chegamos, frequenta uma escola internacional. Isso porque não sabemos quanto tempo ficaremos na Dinamarca. Achamos que para ela será mais útil aprender em inglês do que em dinamarquês, uma língua que só é falada por 5 milhões de pessoas. Fora a possibilidade de conviver em um ambiente internacional.

Até hoje, todas as turmas da Alicia eram bem variadas, com crianças de diferentes partes do mundo. Desde cedo ela aprendeu que nos diversos países há diversas culturas. Percebeu que há mais coisas em comum entre ela e os colegas do que diferenças.

Ontem foi celebrado na escola o dia das nações unidas. Nesse dia cada criança traz um prato típico de seu país para o almoço comunitário. As crianças são encorajadas a vestir trajes típicos do país de onde vieram. A Alicia quis levar beijinhos de coco e vestiu a camisa da seleção (de futebol). Muitas crianças vestiram aqueles trajes que costumamos ver em grupos folclóricos no Brasil.

Bom se a convivência entre os diversos povos fosse como a das crianças nas escolas internacionais. Na sala da Alicia há judeus, indus, católicos e muçulmanos, todos convivem bem. Sempre há muito o que se aprender com as crianças.

Quinta-feira, Outubro 21, 2004

Na Língua dos Vikings

Desde o início do ano estou tentando iniciar um curso de dinamarquês. Somente ontem tive minha primeira aula. Claro que, depois de quase três anos, a língua já não me soa tão estranha aos ouvidos. Ainda assim pude me surpreender na minha primeira incursão guiada na língua dos vikings.

Sempre que ouvia "vá rela du?", sabia que estavam perguntando meu nome. Pois não é que a forma escrita da frase é: Hvad hedder du? Agora me digam, qual é o vivente de língua materna latina que consegue adivinhar que hedder se fala rela? Pois é, esse é só o começo.




Segunda-feira, Outubro 18, 2004

Música Para Ouvir no Trabalho

Hoje a sala em frente à minha está sofrendo reparos. O encarregado pelos reparos está ouvindo rádio desde cedo. Estranho ouvir tantos sons em um ambiente normalmente tão quieto. Não estou conseguindo me concentrar. Não sei se é o cansaço ou a música.

O trabalho manual combina com música, já a tentativa de trabalho intelectual, pelo menos no meu caso, vai por água abaixo na presença de sons, sejam eles quais forem. O engraçado é que não estou chateada com o indivíduo dono do rádio. Acho que fiquei até contente pela oportunidade de me distrair.

Certamente mais tarde ou amanhã, quando me der conta da quantidade de trabalho por fazer, ficarei com a maior raiva por ter me distraído tanto e ter vindo escrever bobagens ao invés de escrever tese, artigo ou preparar aula. Enquanto o depois não chega, fico cantarolando com o rádio.

Quinta-feira, Outubro 14, 2004

Serviço Público é Para Todos

A sociedade brasileira costuma achar que serviços públicos existem para quem não pode pagar pelo serviço privado. Essa posição acaba por colaborar com a precariedade do serviço público. Os usuários do sistema público não costumam ter parâmetros para julgar a qualidade do serviço que recebem. O resultado são instituições públicas de ensino e saúde carentes de bom pessoal e material de trabalho.

Caso mais formadores de opinião fizessem uso do sistema público a situação seria diferente. Os impostos são pagos para que a sociedade seja atendida e isso deve ser cobrado. A classe média em geral tem seus impostos descontados na folha de pagamento, deveria fazer valer o que paga. Deveria cobrar na forma de serviços.

Não é tarefa simples, mas para conseguir uma sociedade mais justa há que se criticar o que não funciona. Se o transporte coletivo não é bom, não almeje comprar um carro. Vá àquele vereador que se elegeu com seu voto e reclame. Reclame muito, até que o problema se resolva. Precisa fazer um check-up? Vá ao posto de saúde. Pode ser que você seja supreendido sendo atendido por um ótimo profissional. Foi mal atendido? Reclame.

Caso se sinta confortável passeando no seu carro, pagando plano de saúde e escola particular para os seus filhos, pergunto: você se sente seguro para andar de carro com os vidros abertos? Acho provável que não, então faça um esforço. Utilize o posto de saúde de vez em quando, reclame se for mal atendido, elogie se for bem atendido. Deixe o carro em casa ao menos uma vez por semana e ande de ônibus, trem ou metrô. Caso tenha demorado demais para chegar ao seu destino, ponha a boca no mundo.

É possível que meus três leitores estejam pensando que falar essas coisas estando do outro lado do oceano e acima da linha do equador, é muito fácil. Posso dizer que não tenho carro e que uso a saúde pública aqui. Quero, quando voltar ao Brasil, continuar fazendo o mesmo.


Terça-feira, Outubro 12, 2004

2004

Ontem ganhei uma agenda de 2005 e então percebi que 2004 está no fim. Como também está no fim o meu doutorado. Tenho pensado bastante sobre a qualidade do trabalho realizado e o que mais poderia ser feito. Difícil ficar satisfeita.

Não posso negar que aprendi bastante, que a experiência foi válida. Ainda assim tenho a impressão de que poderia ter sido melhor, que minha dedicação não foi suficiente. Coisas de quem sempre deseja atingir a perfeição embora sempre fique longe dela.

Viver longe do Brasil tem sido bom. Não que a Dinamarca seja melhor que o Brasil mas certamente é muito diferente. Viver aqui me fez perceber que a classe média do Brasil tem um conforto impensável para a classe média daqui.

No início senti muita falta do Brasil, dos familiares, dos velhos amigos. Não deixei de pensar naqueles que gosto, amo meu país, mas passei a não dar tanta importância ao lugar onde me encontro. Onde quer que vá eu sempre estarei junto comigo. Todas as minhas manias, defeitos e até as poucas qualidades vão comigo pelo mundo afora. Melhor estar bem comigo, fica mais fácil assim estar bem em qualquer lugar.

Domingo, Outubro 10, 2004

Kulturnatten

Todos os anos, na última sexta antes das férias de outono, acontece a noite de cultura (kulturnatten). Nesse dia inúmeros museus, livrarias, galerias de arte ficam abertos até meia-noite. Todos aqueles que compram o passe da kulturnaten, que custa em torno de R$35,00, têm livre acesso às atrações além de transporte público gratuito.

A cidade fica cheia de vida. Há atrações para todos os gostos. Até para aqueles que acham que comprar também é cultura, pois inúmeras lojas ficam abertas. Nossa noite de cultura teve passeio na prefeitura, jazz, jantar no clube brasileiro, passeio no centro da cidade e visita à torre redonda .

Depois dessa maratona a Alicia estava muito cansada. Principalmente porque durante a manhã da última sexta foi dia de correr, ela correu 6 km, ganhou até um certificado. De qualquer modo nos divertimos muito na nossa noite de cultura e ficamos imaginando como seria ter uma noite de cultura na nossa terrinha.

Sexta-feira, Outubro 08, 2004

O Tico, meu neurônio

São raras, muito raras, as vezes em que me dou a alegria de estar 100% satisfeita com o resultado de um trabalho. Hoje, depois de muito queimar as pestanas, consegui colocar meu modelo de neurônio para funcionar. Ele ainda não está na rede, é um único neurônio, bem simples, do sistema motor. Mas ele está funcionando bem. Minha alegria é tão grande que o único neurônio ativo da minha cabeça também está em festa. Está certo, terei que montar uma rede com uns 10 mil neurônios, mas pelo menos já tenho um que funciona.

Segunda-feira, Outubro 04, 2004

A Grande Abóbora

O começo do outono é a época em que mais aparecem horti-fruti baratos. É também a única época do ano em que encontramos abóboras, algumas vezes até por um bom preço. No último sábado quando fomos ao supermercado encontramos abóboras lindas e baratas. O Marcelo ficou até desconfiado, achou que poderiam não estar boas. Não resisti e comprei uma abóbora imensa e linda.

Passamos nossa tarde de sábado na cozinha, mexendo com a abóbora. Fizemos pães de abóbora e a Alicia separou as sementes para assar com sal. O resto da abóbora nós descascamos, cortamos e guardamos em pequenas porções. No domingo fiz doce de abóbora com coco e quibebe. Ainda comeremos da nossa grande abóbora por um bom tempo.

Tenho que pensar ainda quais serão os quitutes de abóbora que farei nos próximos dias. Acho que depois da overdose de abóbora não vamos querer ver abóboras por um bom tempo. E não veremos mesmo pois elas só aparecerão de volta no começo do próximo outono.

Sexta-feira, Outubro 01, 2004

Compras

Antes de morar aqui em Copenhague, morei por dois anos em São Paulo. Devo dizer que na época incorporei o hábito paulista de passear no shopping. Templos de consumo não faltam na terra da garoa. Quando cheguei nessa gélida terra, estranhei a ausência dos imensos blocos de concreto cheios de lojas dentro. Aos poucos percebi que os nativos gostam mesmo é de fazer compras em lojas pequenas, bem exclusivas, sem muita gente. Na hora de passear vai-se ao parque, aos museus ou a um dos inúmeros cafés espalhados pela cidade.

Não resta dúvidas de que com tantas opções culturais passear em shoppings por aqui seria uma tremenda perda de tempo. Em compensação, no que diz respeito a compras, prefiro ir a um dos poucos shoppings daqui a fazer compras em lojinhas. O motivo é pura e simplesmente financeiro. As lojinhas, por comprarem em pequena quantidade, têm os preços indiscutivelmente mais altos que as grandes redes dos shoppings.

Hoje, logo mais, teremos uma ida forçada ao shopping. Com a chegada do outono, a Alicia precisa de botas a prova d'água e bem quentinhas. Durante a semana tentei ir a todas as lojas de calçados da redondeza, os preços estão de assustar. Vamos ver se no maior shopping da Escandinávia* encontramos uma boa oferta.



*O maior shopping da Escandinávia é assim mais ou menos do tamanho do shopping Paulista (para os paulistas), ou do shopping Botafogo (para os cariocas), ou do Cristal (para os curitibanos).