Reminiscências

Segunda-feira, Novembro 22, 2004

O Caminho

A neve caía pesada e molhada. Ventava tanto que era difícil manter o equilíbrio sobre a velha bicicleta. Mal se podia enxergar o caminho e este parecia não ter fim. Os cabelos estavam cobertos de gelo e alguns flocos de neve atingiam-me o corpo nos poucos lugares em que minhas vestes não me cobriam. O rosto estava gelado e um tanto amortecido.

O longo caminho pareceu-me uma paródia da minha própria existência. Muito esforço, um caminho difícil, a vulnerabilidade e a certeza de que iria chegar ao objetivo. A tempestade não me impediu de chegar ao trabalho.

No trabalho a perspectiva de mais trabalho para o futuro. Alegria. Nada melhor que poder continuar no caminho.

Sexta-feira, Novembro 19, 2004

Uma Manhã de Novembro

Pela primeira vez em meses o dia amanheceu com temperatura negativa. Em compensação o céu está tão limpo que até dá para esquecer o frio. Em um dia bonito como hoje, há três anos, cheguei aqui para dar um seminário. Não sabia se conseguiria a vaga para o doutorado, mas minha primeira impressão dessa terra foi muito boa. O frio não me incomoda, já não posso dizer o mesmo da chuva.

Três anos não é muito tempo para quem está para fazer 30. Os mesmos três anos representam a metade da vida da Alicia, justamente a metade em que ela passou a falar com mais desenvoltura, começou a dar sua opinião nos mais variados assuntos, passou a ser mais independente, está aprendendo a ler.

Quando brinca ela diz morar nos mais variados lugares. Ontem ela dizia que estava morando na Suécia. Semana passada foi na Inglaterra. Percebo que o lar dela é o mundo, que apesar do orgulho de ser brasileira ela se sente em casa onde quer que esteja.

O mundo é mesmo pequeno. Não é assim tão difícil viver em uma cultura diferente da sua. O começo, como qualquer começo não foi fácil. Os ganhos foram muitos. No fim das contas somos mesmo muito iguais mas completamente diferentes.

Sexta-feira, Novembro 12, 2004

Lembranças

Acontece com uma certa frequência, fico com vontate de conversar com alguém que não vejo há muito tempo. Uma situação me faz lembrar da pessoa e aí a vontade vem. Se procurasse satisfazer essa vontade acho que deixaria meus interlocutores com uma expressão assim de ponto de interrogação.

Por exemplo, li um texto que me lembrou Fulana, já nem lembro onde foi que li. Então dou um jeito de encontrar o telefone de Fulana (que não vejo há uns 15 anos). Telefono. Fulana atende e me identifico. Com algum esforço Fulana se lembra quem sou. Aí digo, pois é Fulana li um texto não sei onde que me deu vontade de conversar com você. O texto era sobre blá, blá, blá, lembrei que o assunto te interessava e queria conversar com você sobre isso. Silêncio do outro lado da linha. Talvez Fulana já nem se interesse mais pelo assunto. Talvez Fulana esteja pensando que o tal texto não foi o real motivo do telefonema. Talvez Fulana não tenha de fato se lembrado de mim. Enfim, muito complicado ligar para Fulana.

Melhor escrever sobre Fulana e guardar para mim as lembranças de outros tempos. Aqueles tempos em que eu e Fulana achávamos que o Sérgio Brito dos Titãs era o cara. Quem sabe um dia esbarro com Fulana por aí. Então poderei dizer que lembrei dela . Sabe-se lá o que o acaso nos trará.

Domingo, Novembro 07, 2004

Sobre o Futuro

Nos últimos dias não tive muito tempo para escrever. Também gostaria de evitar de escrever sobre o único assunto que me vinha à mente, mas não teve jeito. Tenho mesmo que escrever sobre a reeleição do seu George W. Bush. Não há como evitar uma certa tristeza ao se pensar nos próximos quatro anos desse nosso planetinha.

Quantos mais serão aterrorizados pela guerra contra o terror? Que outros países serão invadidos? A ONU ainda existirá? Pessoas ainda visitarão os Estados Unidos? Os Estados Unidos permitirão que alguém os visite?

Penso como será a vida dos cinquenta milhões que não votaram em Bush. A cada nova ação do cowboy texano eles irão imaginar como seria se mais alguns tivessem votado como eles. Não acredito que o Kerry fosse capaz de trazer paz ao mundo nem que com ele no comando o Império deixaria de imperar sobre as nações menos favorecidas. Acredito porém que haveria um pouco mais de bom senso.

Os mais de cinquenta milhões que resolveram que Bush merecia mais quatro anos de Casa Branca, não sei o que pensam. Certamente não estão lá muito interessados em quantos irão morrer na guerra contra o terror (ou guerra de terror, vendo por outro ângulo). Também não devem esquentar a cabeça com os indicadores econômicos de sua pátria. A opinião do resto dos mortais sobre o que é melhor para o mundo não tem o menor valor para esses distintos cidadãos.

Quem sabe o comandante do Império resolve se dar umas férias. Se tivermos sorte ele decide desfrutar a vida nos últimos quatro anos de mandato. Resolve que seu rancho noTexas merece mais atenção e nos deixa, a todos, em paz.