Reminiscências

Sexta-feira, Abril 29, 2005

Imperfeitos

Depois de três anos vivendo longe do Brasil fico pensando se me internacionalizei ou não. Consigo hoje me imaginar vivendo em qualquer lugar que tenha um centro de pesquisa onde eu possa trabalhar. Minha crença de que o ser humano não é lá tão criativo e que não importa de onde venhamos somos basicamente a mesma coisa, é ainda mais forte.

Há diferenças, claro que há, mas há muito mais semelhanças. Triste concluir desse modo, mas no fim da história o que acaba importando mesmo é o umbigo de cada um. Queremos mesmo é ser amados, aceitos e admirados pelos que estão em volta. Resta saber pelo que queremos ser lembrados.

Embora nossa condição humana seja a própria definição da imperfeição, ficamos na eterna luta para achar algo perfeito em nós. Então olho em volta e vejo muita gente numa tentativa alucinada de se tornarem heróis. Com o passar dos anos os heróis e heroínas se tornam pobres figuras decadentes.

Quinta-feira, Abril 28, 2005

Incertezas

Nada é estático, ainda assim estranho mudanças. Felizmente, ultimamente tenho estranhado menos, mas ainda não posso dizer que me acostumei a elas. Esta semana tive que mudar de sala na universidade. Adorava minha sala anterior, era o meu canto de trabalho. A sala nova é estranha e de algum modo triste, não gostei da mudança.

Tem também o problema da vista. Da sala anterior era possível ver todo o centro de Copenhague. E tinha luz, muita luz nos dias de sol. Daqui do outro lado do prédio a vista é tristonha e para piorar hoje está nublado.

Diz o Verissimo, que falamos do tempo quando na verdade queremos falar sobre a morte ou sobre sexo, que são outros dois assuntos do interesse de todos nós homo sapiens sapiens. Falei do tempo para não falar das incertezas. Fato mesmo é que quando conseguimos prever o tempo pouco sabemos da posição e vice-versa. Se Ele existe não sei, mas se existir de fato joga dados e tem um senso de humor duvidoso.

Terça-feira, Abril 26, 2005

Retorno

Algumas pessoas, bem poucas, perguntaram o motivo de eu não escrever por tanto tempo. O motivo maior é a total falta de inspiração. Alguns dirão, com razão, que inspiração de fato nunca tive. Ainda assim nos últimos tempos nem minha parca inspiração deu as caras de modo que fiquei impossibilitada de escrever. Resolvi retomar o hábito mesmo sem saber sobre que assunto teclar.

Muito aconteceu nos últimos meses, mas esse muito que aconteceu muito pouco me afetou. Continuamos nossa vidinha de estrangeiros na terra dos vikings, vamos levando. Moramos agora em uma casa que alugamos mobiliada. Faz parte da mobília um piano e um gato preto. O gato, como qualquer gato, é o dono da casa e também nosso dono enquanto lá morarmos.

A Alicia, vejam só, perdeu dois dentes e ostenta orgulhosa o sorriso banguela. Assim vejo quanto tempo passou desde que para cá viemos. Felizmente, ainda não percebi em mim as marcas desse tempo. É difícil enxergar o óbvio.